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Eurípedes
O
homem barbado que vivia com seus livros numa caverna na ilha de Salamina
era um estranho entre os homens de seu tempo. Dizia-se de Eurípides que
passava dias inteiros sentado, a meditar, desprezava o lugar comum e era
melancólico, reservado e insociável.
Nos cinqüenta anos de teatro, durante os quais escreveu noventa e duas
peças, conquistou apenas cinco prêmios, sendo o quinto concedido após
sua morte. Permanente alvo dos poetas cômicos, especialmente de Aristófanes,
tornou-se objeto das mais desenfreadas calúnias e zombarias.
Julgado por impiedade deixou Atenas totalmente desacreditado. A corte
macedônia do rei Arquelau honrou-o. Mas apenas uns dezoito meses depois
veio tragicamente a falecer. Eurípides é o exemplo clássico do artista
incompreendido.
Sócrates colocava-o acima de todos os outros dramaturgos e jamais ia ao
teatro senão quando Eurípides tinha uma de suas peças encenadas. Sófocles
respeitava seu colega-dramaturgo, ainda que não aprovasse seu realismo.
A estória de Eurípides é a de um homem que estava fora de sintonia com
a maioria. Era um livre-pensador, humanitário e pacifista num período
que se tornou cada vez mais intolerante e enlouquecido pela guerra.
Se Eurípides era um acirrado crítico de seu tempo, podia contudo, assinalar
com justiça que não fora ele quem mudara e sim Atenas. Rica, poderosa
e cosmopolita em virtude de seu comércio e imperialismo, a Atenas de sua
juventude ofereceu o solo adequado para a filosofia liberal que mais tarde
experimentou dias tão negros.
Eurípides esteve estreitamente ligado à religião que mais tarde questionaria
com tão ingrata perseverança. Foi um dos muitos livres-pensadores da Europa,
criados numa atmosfera religiosa. Talvez uma certa ligação com religião
seja sempre pré-requisito para o agnosticismo ativo.
Eurípides permaneceu suscetível aos valores estéticos da adoração religiosa
até o fim de seus dias. Seu fascínio como dramaturgo está nesse dualismo
entre o pensamento e a fantasia, entre emoção e a razão.
Os sofistas, que questionavam todas as doutrinas e ensinavam a hábil arte
do raciocínio, o enfeitiçaram para sempre. Vário pensadores não convencionais
que expunham diversas doutrinas racionalistas e humanistas imbuíram Eurípides
de um apaixonado amor pela verdade racional. Foi a partir deles que o
primeiro dramaturgo "moderno" desenvolveu o hábito do sofisma
em seu diálogo e adotou uma perspectiva social que sustentava a igualdade
de escravos e senhores, homens e mulheres, cidadãos e estrangeiros.
Quando Atenas se empenhou na luta de vida ou morte com a Esparta antiintelectual,
provinciana e militarista, acorreu em sua defesa não apenas como soldado
mas também como propagandista que exaltava seus ideais.
Prolongando-se a guerra com Esparta e sofrendo Atenas derrota após derrota,
o povo perdeu a predisposição para a razão e tolerância. Péricles, o estadista
liberal, viu sua influência desaparecer, foi obrigado a permitir o exílio
de Anaxágoras e Fídias e chegou mesmo a sofrer um impeachment. Um a um,
Eurípides viu seus amigos e mestres silenciados ou expulsos da cidade.
Em meio a esses acontecimentos, Eurípides continuou a escrever peças que
mantiam em solução os ensinamentos dos exilados, sendo pessoalmente salvo
do banimento em parte porque suas heresias eram mais expressas por suas
personagens que por ele mesmo e em parte porque o dramaturgo apresentava
sua filosofia num molde tradicional. Em aparência era mais formal que
o próprio Ésquilo.
O ateniense comum era abrandado por um final convencional, as sutilezas
da peça podiam escorregar por suas mãos e seus sentidos exitavam-se com
as doces canções e músicas. Euripides pôde continuar em Atenas por longo
tempo mesmo sendo considerado com suspeita e suas peças recebendo normalmente
o segundo ou terceiro lugar dos vigilantes juizes do festival de teatro.
A estrutura artística desigual e muitas vezes enigmática de seu trabalho
prova que foi grandemente cerceado por essa necessidade de estabelecer
um compromisso com o público inamistoso. Suas peças freqüentemente têm
dois finais: um inconvencional, ditado pela lógica do drama e outro convencional,
para o povo, violando a lógica dramática.
Se algumas vezes Eurípides comprou sua liberdade intelectual às custas
da perfeição, a compra foi uma barganha em termos de evolução dramática.
Enquanto brincava de cabra-cega com seu público, conseguiu criar o mais
vigoroso realismo e a crítica social da cena clássica. O povo simples
começou a aparecer em suas peças e seus heróis homéricos eram freqüentemente
personagens anônimos ou desagradáveis. Outras personagens homéricas com
Electra e Crestes são até hoje casos caros à clinica psiquiátrica. Eurípides
e o primeiro dramaturgo a dramatizar os conflitos internos do indivíduo
sem atribuir a vitória final aos impulsos mais nobres.
A obra de Eurípides constitui, sem dúvida alguma, o protótipo do moderno
drama realista e psicológico.
Eurípides poderia sem dúvida Ter continuado a criar poderosos dramas pessoais
ad infinitium. Mas a vida tornava-se cada vez mais complicada para um
pensador humanista. Em 431, ano de Medéia, Atenas entrou em sua longa
e desastrosa guerra com Esparta. Não era momento para um homem como Eurípides
preocupar-se com problemas predominantemente pessoais.
Por certo, ao envelhecer, Eurípides pouco fez para granjear a favor de
seus concidadãos. Na verdade, atormentavam-no ainda mais do que ao tempo
em que escrevia seus mais amargos dramas sociais. Foi declarado blasfemo
e sofista. Segundo o poeta cômico Filodemo, Eurípides deixou Atenas porque
quase toda a cidade "divertia-se às suas custas".
Bibliografia:
GASSNER,
jonn "Mestres do teatro"; Tradução de Alberto Guzik e J. Guinsburg.
SãoPaulo , Perspectiva, Ed. Da universidade de São Paulo,1974 (voltar
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