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Nascido
em 495 a C, trinta anos após seu predecessor, desfrutou das comodidades
de filho de um rico mercador e das vantagens de um belo corpo.
Er tão extraordinário por sua graça física que aos dezesseis anos foi
escolhido para liderar o coro de meninos que celebrou a vitória de Salamina.
Após doze anos mais despendidos no estudo e no treinamento, Sófocles estava
pronto para competir com os dramaturgos já em exercício, e não foi outro
senão Ésquilo quem perdeu para ele o primeiro prêmio. Esta primeira peça
fio seguida por outras cem ou mais, dezoito das quais receberam o primeiro
prêmio, sendo que as demais nunca ficaram abaixo do segundo.
Ator consumado, interpretava suas próprias peças. Apenas a relativa fraqueza
de sua voz, levou-o a renunciar a profissão de ator. Foi também sacerdote
ordenado, ligado ao serviço de dois heróis locais, Arconte e Esculápio;
o deus da Medicina.
Em geral não associamos os artistas as altas finanças (Com exceção talvez
de Ronald Reagan) mas Sófocles foi até mesmo diretor do Departamento do
Tesouro.
Em suma, Sófocles foi o ídolo querido do povo de Atenas, pertencendo à
longa linhagem de escritores que negam a teoria de que o gênio nunca pode
ser reconhecido enquanto vivo.
Sua vida que durou por noventa anos, não revelou qualquer declínio de
seus poderes.
Sófocles era um poeta com uma pureza de expressão que não encontrou paralelo
no teatro até que Racine começou a escrever peças para a corte francesa,
vinte séculos mais tarde.
Uma narrativa afirma que Sófocles pretendia criar as pessoas tais como
deviam ser, enquanto Eurípides as fazia tais como eram, mas devia referir-se
a um período anterior que não é representado por qualquer das sete peças
remanescentes nas quais nós fornece ampla evidência de possuir tanto a
capacidade quanto o desejo de retratar as pessoas tais quais são.
Há dois tipos de sofrimento em suas tragédias – aquele que advém de um
excesso de paixão e aquele que brota de um acidente. O mal produzido pelo
homem é formado no molde fixo do caráter humano e o acidente decorre da
natureza do universo. Embora Sófocles aceitasse oficialmente os deuses
gregos, estes não afetavam sua filosofia.
No mundo sofocliano o homem deve esforçar-se para introduzir ordem em
seu próprio espírito.
Entretanto é acima de tudo na elaboração artística de suas tragédias que
Sófocles cria a ordem, gosto e equilíbrio tão raramente encontráveis no
mundo real. (ao topo)
A
Arte da Dramaturgia de Sófocles
Como
todo artista competente, é claro que Sófocles não chegou à sua estatura
total repentinamente; experimento, tentou diferentes estilos e lutou diligentemente
pela perfeição.
DE início imitou a grandeza de Ésquilo, depois foi para o extremo oposto,
adotando uma forma excessivamente lacônica e abrupta e, finalmente encontrou
o meio-termo entre ao dois estilos, atingindo o método apaixonado e no
entanto contido que caracteriza todas as suas últimas peças; as únicas
que chegaram até a nós.
Seu progresso, porém, não ficou confinado ao estilo. Mesmo sendo verdade
que não podia violar várias normas e/ou interdições como a eliminação
do coro, Sófocles fez a melhor coisa que lhe restava, reduzindo-o ao mínimo
e relegando-o ao segundo plano. Podia tomar estas liberdades e sentiu-se
também livre para aumentar os limites das complicações dramáticas da peça.
Um primeiro passo dado por ele foi a adição de um terceiro ator interlocutor
ao drama ático. Um segundo passo foi a abolição da forma trilógica.
Seu trabalho apresenta forte semelhança com a arquitetura e a escultura
do seu tempo, que dava preferência a pequenos templos e estátuas de deuses
não maiores que um ser humano bem proporcionado.
Nos detalhes de sua dramaturgia, Sófocles é igualmente um artesão difícil
de contentar que calculava seus efeitos. Emprega ironia trágica ou contraste
patético com grande habilidade e a efetividade do estratagema é mostrada
no poderoso Édipo Rei. Mestre na nascente e difícil arte da caracterização,
Sófocles é mestre consumado no artifício do suspense trágico do qual Édipo
Rei é um exemplo supremo. (ao topo)
As
Peças de Sófocles
Através
de vários léxicos e alusões, conhecemos os nomes de mais ou menos cem
peças perdidas, atribuídas a Sófocles. A sobrevivência de uma legião de
títulos e fragmentos também indicam que Sófocles escreveu algumas peças
satíricas ou cômicas muito populares. A partir dos fragmentos recuperados,
vários dos quais são de extraordinária beleza, vemos com nitidez absoluta
que sua profundidade e lucidez quanto aos problemas do momento em que
viveu não estavam restritos ao simples punhado de peças que permaneceu
intacto.
A extensão dos poderes dramáticos de Sófocles só pode ser medida completamente
nas tragédias integrais de que dispomos. Embora a caracterização das personagens
seja sempre um traço primordial, sua obra remanescente pode ser convenientemente
dividida em: três peças de caracteres – As Traquinianas, Ajax e Electra;
um drama social – Antígona; um idílio – Filoctetes; duas tragédias do
destino – Édipo Rei e Édipo em Colona. (ao topo)
Peças
de Caracteres
Uma
das peças tardias, As Traquinianas é a mais fraca de todas pela falta
de unidade desde que o interesse é dividido entre Dejanira e seu marido,
e a peça usa mais do recurso narrativo do que costumamos encontrar na
obra de Sófocles. Mas a tragédia comporta um poderoso e comovente estudo
da mulher ciumenta. Esta peça é desprovida de indagações cósmicas e sociais,
deve muito de seu interesse exclusivamente à lúcida analisa das personagens
de meia idade.
Mais eficaz é Ajax, uma tragédia anterior, penetrante análise de um soldado
corajoso mas hipersensível, que é destruído pelo excesso de suas melhores
qualidades. Rematando esse drama de caracteres, Sófocles cria outra de
suas bem realizadas mulheres, a escrava Tecmessa. Sófocles revela assim
terna visão e compreensão pela condição feminina.
Mas a maior contribuição de Sófocles ao drama de caracteres está em sua
Electra, na qual trata o tema de As Coéforas de Ésquilo unicamente em
termos da personalidade humana. Para Ésquilo o problema era ético, Sófocles
resolve o problema moral e aceita o assassinato materno colocando-o na
distante Antigüidade. Tendo solucionado a questão ética, volta-se inteiro
ao problema da personagem.
A caracterização nessa tragédia á parte de uma trama cuidadosamente elaborada
girando ao redor da forma pela qual Orestes obtém acesso a Clitemnestra
e Egisto. Dor e alegria alternam-se por toda a peça.(ao
topo)
Um
Idílio Grego
Filoctetes
exibe o lado mais ameno de sua mestria artística, é uma tragédia apenas
no sentido grego (devido à exaltada dramáticidade) ; não faz uso de catástrofe
ao final e o espírito da obra é pastoral.
Frases cortantes sublinham os comentários de Sófocles sobre os caminhos
do mundo: "A guerra jamais massacra o homem mau", e "Aos
saqueadores jamais sopra um vento adverso". Mas a atmosfera dominante
é de loucura e luz e o poeta nos assegura que a perversidade do mundo
é compensada algumas vezes pela imaculada humanidade.
Entretanto, é significativo que Sófocles apenas tenha atingido sua plena
estatura quando, ao invés de contentar-se com simples estudos de personagens
e observações mais ou menos fugidas sobre o gênero humano, voltou-se para
temas maiores, bem definidos. Há dois deles em sua obra remanescente:
as relações do homem com a sociedade e os labirintos do destino. (ao
topo)
Antígona
e o Drama Social
Uma
das mais grandes tragédias da literatura dramática é Antígona, escrita
em 442, antes de qualquer dos textos de caracteres remanescentes. Sófocles
dedica-se aqui a um conflito básico, as pretensões rivais do Estado e
da consciência individual.
A questão fundamental á descobrir como estabelecer um termo médio entre
esses princípios e evitar a catástrofe quer para o grupo quer para o indivíduo.
Afora isso, a oposição ainda mais geral entre amor e ódio lança sua magia
sobre toda a peça.
Sófocles não procura desviar o drama em favor de sua heroína, pois reconhece
os direitos do Estado e do interesse público.
Embora Sófocles não se incline a resolver a disputa entre o Estado e a
consciência individual, contentando-se simplesmente em observar que as
conseqüências do conflito tendam a ser trágicas, o ímpeto de sua piedade
e de sua caracterização de Antígona lança o peso da simpatia, ao menos
quantos aos leitores modernos, para o lado da nobre moça.
Esta deslumbrante tragédia deixa em suspenso diversos problemas que não
entregam com facilidade seu significado ao leitor casual.(ao
topo)
A
Tragédia do Destino – Édipo
A
mesma batalha com um tema importante e difícil distingue as duas grandes
peças que colocam o problema do destino. Usualmente o acidental é considerado
um artifício barato e fácil na literatura dramática. Mas não é barato
nem fácil no Édipo Rei. O acidente ocorre antes do início da peça e amarra
as circunstâncias num nó que só poderá ser desatado após prolongada batalha.
Além disso, felizmente, Sófocles estava à altura da tarefa. Es não podia
esperar resolver o enigma do destino, ao menos conseguiu uma das incontestáveis
obras-primas do mundo. E é novamente seu soberbo Dom para a caracterização
que enriquece a simples mecânica da dramaturgia com vida, agonia e plausibilidade.
Como alguém que viu a vida "equilibradamente", segundo suas
luzes pagãs recusou-se a codificar a existência do acidente na tragédia.
Édipo é uma personagem superlativamente ativa, como se o dramaturgo ático
tentasse nos dizer que o destino trabalha através do caráter da vítima.
Com efeito o fado encontra forte aliado neste homem corajoso, nobre a
de ótimas intenções, cuja única é o temperamento inflamável. Tanto suas
virtudes quanto defeitos conspiram contra ele.
Sem ser moralmente responsável, Édipo é psicologicamente responsável pelos
tormentos. Consequentemente é uma personagem dinâmica e um sofredor ativo;
na verdade, é uma das figuras trágicas da literatura.
A estória de Édipo nos convida a descer às profundezas da antropologia
e psicanálise modernas que foram intuitivamente perscrutadas pelos poetas
desde tempos imemoriais. Somos relembrados dos impulsos anárquicos e incestuosos
que complicam a vida do homem e se exprimiram em tantos tabus primitivos
e neuroses civilizadas. Como toda obra de arte superior, esta tragédia
tem uma vida dupla: aquela que expressa e aquela que provoca.
A seqüência a esta tragédia, o sereno e encantador Édipo em Colona, escrito
muitos anos mais tarde, é o Purgatório e Paraíso do Inferno de Sófocles.
O problema do destino inexplicável colocado pelo Édipo Rei não é respondido
no trabalho posterior. Mas pelo menos uma solução é indicada: O que o
homem não pode controlar, ao menos pode aceitar; o infortúnio pode ser
suportado com fortaleza e enfrentado sem sentimento de culpa. Édipo está
purgado e curado. E com ele, nós que o seguimos aos abismos imergimos
liberados e fortificados.
Logo após a apresentação de Édipo em Colona, em 405 Sófocles foi juntar-se
à sombra de Ésquilo. No mesmo ano fatídico falecera também Eurípides e
morreria a glória que era a Grécia, pois Atenas sucumbiria ao poderio
militar de Esparta. Nenhum mestre da alta arte da tragédia floresceu em
Atenas após a morte de Sófocles.(ao topo)
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