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O
Teatro Simbolista
Nas
histórias do movimento simbolista não se deu muita atenção ao teatro que
se originou dele. Embora existam vários estudos, todos eles abordam o
tema do ponto de vista do desenvolvimento teatral em vez do poético, e
dentro de limites nacionais em lugar da vantajosa perspectiva não-nacionalista.
Foi a estrutura dramática um dos sucessos mais verdadeiros e duradouros
que o movimento simbolista criou para a poesia, estrutura que ia além
do verso esotérico e íntimo.
As mutações que o simbolismo realizou na escritura do verso nada são,
com efeito, quando comparadas aos assaltos feitos à forma dramática. Todavia,
o irônico é que não foi a vais das platéias nem a zombaria dos jornalistas,
mas os comentários eruditos e lógicos dos especialistas de teatro, que
tentaram censurar e por fim demolir o teatro simbolista.
Três
são os maiores defeitos do teatro simbolista:
*
Nenhuma caracterização e nenhuma oportunidade de interpretaçãoFalta de
crise ou conflito (A morta resolve tudo independentemente de nós)
* Este tipo de teatro não continha ideologia (Coisa muito comum agora
mas naquele momento histórico isso representava uma falha enorme.
Do
ponto de vista poético, o teatro simbolista é freqüentemente mais bem
sucedido onde o verso não consegue realizar os objetivos simbolistas.
A ambigüidade do discurso pode ser representada mediante uma relação equívoca
entre as personagens e os objetos que as cercam, no teatro simbolista
nenhum objeto é decorativo; ele está ali para exteriorizar uma visão,
sublinhar um efeito, desempenhar um papel na subcorrente de acontecimentos
imprevisíveis.
Contudo, um teatro do simbolismo se desenvolveu, não diretamente de Mallarmé,
mas do seu entourage simbolista, que corpificou seu sonho da projeção
verbal e visual e exteriorização dos ingredientes que constituem o poder
da música; comunicação não racional, excitação da imaginação e condução
à visão subjetiva.
Strindberg, Ibsen, Tolstói e Shakespeare contrastavam flagrantemente com
a cena teatral local do teatro naturalista. Lugné-Poe reconheceu a necessidade
de um novo conceito de teatro e preparou o terreno para o teatro simbolista
ao acostumar suas audiências a um teatro santuário, mais um lugar para
meditação do que para predicação.
L’ Intrusa é uma preciosidade do teatro simbolista, completamente clara
e perfeita quando julgada segundo os padrões simbolistas. O tema é abstrato:
a própria morte. Toda encenação é verdadeiramente simbolista, sem qualquer
localização especifica ou materialização da idéia. O que se simboliza
é a ausência e a passagem dela através de um décor e entre as pessoas
que estão nele, e todas reagem à passagem não como entidades separadas
mas como uma unidade sinfônica, modulando-se entre si, repetindo-se em
sua fala e movimento a uma simples harmonia, em vez de a qualquer conflito
pessoal ou particular.
A maior contribuição de Maetelinck ao teatro simbolista foi Pelléas et
Mélisande. Também neste caso, o tema, o enredo e as personagens são estereotipadas
e sem originalidade. A peça trata do eterno triângulo: dois irmãos amam
a mesma mulher que está casada com um deles.
A peça começa com um encontro casual do herói com a heroína e termina
com a natural, embora prematura, morte desta. As personagem não tem nenhum
controle sobre qualquer acontecimento, tampouco a tragédia resulta do
fracasso das paixões humanas ou da vingança dos deuses.
No simbolismo - como
na filosofia de Schopenhauer, com a qual tem grande afinidade -, são mais
uma vez as forças exteriores que escapam ao controle da vontade do homem
e o colocam entre a vida e a morte, dois pólos da origem misteriosa, inexplicáveis
para ele e controlados pelo acaso. Também o tempo é um elemento que está
além do controle humano. O caráter determinista e não providenciais das
forças exteriores retira do homem a noção de propósito, objetivo e vontade,
o significado de qualquer "coup de dés" que se queria tentar.
Tanto o simbolismo quanto o naturalismo são, neste sentido, materialistas.
Os
incessantes esforços feitos por diretores e cenógrafos inventivos, capazes
de criar efeitos técnicos de iluminação e decoração afinados ao estado
de espírito das peças, têm feito com que estas sejam representadas de
vez em quando como manifestações de um "Teatro de arte". A este respeito,
o teatro simbolista tem recebido uma importante ajuda por parte dos avançados
processos fotográficos, que podem expressar no cinema as ilusões difíceis
de se conseguir no palco.
Por
Anna Balakian
O Simbolismo. São Paulo,
Pespectiva, 1985
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